O mês de Agosto é um período repleto de festas, religiosas e profanas, em todo o concelho. As casas, fechadas durante todo o ano, enchem-se nesta altura de alegria, de luz e de cor.As praças, as ruas, os bares e os cafés são pontos de encontro entre os que cá residem e os que um dia partiram e que, ao menos uma vez por ano, nos visitam. É um período em que se promovem festas para aproveitar a grande presença de pessoas.
De entre as festas que se realizam, um pouco por todo o concelho, merecem particular destaque as capeias, as quais são, na maior parte das vezes, integradas nas festas que se realizam no Verão devido ao grande movimento populacional que se verifica.
A capeia é uma demonstração de força e de coragem entre os rapazes e o touro bravo. Antigamente, a destreza e a coragem que os rapazes demonstravam na lide dos touros valia-lhes o reconhecimento público, que muitas vezes se traduzia num arranjo amoroso. Às raparigas não passava indiferente a valentia dos rapazes! Um autêntico rito de passagem.
Muito se tem escrito sobre as capeias. Quero apenas deixar um modesto contributo para quem queira ir mais longe na sua análise.
Adérito Tavares no livro A Capeia Arraiana (1985), descreve esta prática, exclusiva da região raiana, e que consiste na lide de touros com o forcão. É uma prática antiga e que se tem mantido até aos nossos dias, apesar de algumas modificações.
J. Leite de Vasconcellos, (Vol. IX, 1985:572, resultado de recolhas etnográficas que remontam ao início do séc. XX) descreve assim uma capeia:
Para ver ilustração do forcão, clique aqui.
Prepara-se um curro com carros de bois, carregados de madeira, onde tomam lugar os espectadores. Coloca-se num dos extremos o forcão ou forcado, que consiste no seguinte: Um triângulo de uns 5 metros de altura formado de varas muito grossas e atravessado por outras menores da seguinte forma:
Em A está o rabiador, isto é um homem que dirige os movimentos o triângulo, segundo o ataque do toiro. Nos logares (sic) indicados pelas outras letras estão outros homens que sustentam o triângulo, uns por fora outros por dentro nos intervalos das varas. O toiro vem na direcção da base, que está pouco mais ou menos à distância de um metro do chão. O rabiador eleva ou abaixa o triângulo, auxiliado pelos outros homens conforme a direcção que o toiro toma, e tenta assim impedir que o toiro salte para cima do triângulo ou se meta por baixo, o que às vezes acontece, entre gritos e algazarra dos espectadores.
Nota 1: A Sabugal+, E.M. desde 2008, está a compilar a informação, recolha e elaboração da documentação necessária, no sentido de proceder ao reconhecimento da Capeia Arraiana, enquanto Património Cultural Imaterial, bem como a sua salvaguarda à escala internacional através da UNESCO a fim de integrar a lista do Património Cultural Imaterial da humanidade. (Conforme Decreto Lei N.º 139/2009, de 15 de Junho, e Portaria 196/2010, de 9 de Abril).
Nota 2: A Câmara Municipal do Sabugal vai brevemente instituir o Prémio Municipal de Trabalhos de Investigação sobre a Capeia Arraiana, com o objectivo de distinguir trabalhos de investigação no domínio da Capeia Arraiana. Pretende-se com essa iniciativa estimular, sobretudo nos jovens estudantes universitários do concelho, o estudo, a investigação e o aperfeiçoar eventuais trabalhos já realizados sobre a Capeia, no sentido de, de forma séria e científica, criar um documento inédito para posterior edição e divulgação.
Bibliografia sobre a Capeia Arraiana:
1984 À descoberta de Portugal
Porto: Selecções do Reader's Digest
AFONSO, Virgílio
1985 Sabugal - Terras e Gentes
Sabugal: Câmara Municipal do Sabugal
ANDRADE, Osório
1993 A Capeia Raiana – Um Repositório do inconsciente Colectivo
Guarda, INATEL
BOTELHO, Abel
1886 Uma Corrida de Toiros no Sabugal, in Mulheres da Beira
Lisboa: Empresa Lusitana Editora
BRAGA, Franklim Costa
1971 Quadrazais - Etnografia e Linguagem, dissertação de licenciatura em Filologia Românica, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras
CAPUCHA, Luís Manuel Antunes
1995 O espelho quebrado: versus e reversus nas tauromaquias populares, Mediterrâneo. Revista de Estudos Pluridisciplinares sobre as Sociedades Mediterrâncias, Lisboa, 5/6, Julho-Dezembro 1994 / Janeiro-Junho 1995, p. 23-32 + 2 fotos
CORREIA, Joaquim Manuel
1946 Terras de Riba-Côa. Memórias sobre o concelho do Sabugal
Sabugal: Câmara Municipal do Sabugal
FREIRE, Manuel Leal
1996 Ribacôa em contra luz
Sabugal: Câmara Municipal do Sabugal
GOMES, José Manuel Lousa
1985 Memórias da minha terra
Vila do Conde: ed. do autor
MARQUES, Carlos Alberto
1939 Algumas Notas Etnográficas de Riba-Coa
Universidade de Coimbra Faculdade de Letras
MARTINS, Joaquim Tenreira
2008 Viagens na minha infância. Lembranças romanescas
Porto / Fóios: O Progresso da Foz / Côa-Águeda
MARTINS, José
1958 Drama Sob as Nuvens
Tipografia Freitas Brito Ldª.
MONTEMOR, Nuno de
1939 Maria Mim
Lisboa: União Gráfica
OLIVEIRA, Ernesto Veiga de
1984 Festividades cíclicas em Portugal
Lisboa: Publicações Dom Quixote
PISSARRA, António Pereira de Andrade e HERNÁNDEZ GÓMEZ, Angel
2003 Terras do forcão. Ed. Autores
RAMOS, Porfírio
2009 Memórias de Alfaiates e outras Terras Raianas,
Ed. Autor
SARAIVA, José António (dir.)
1995 Guia de Portugal
Lisboa: Expresso
SERRA, Cameira; VEIGA, Pires
1989 A Capeia. Um Jogo de Força. Guarda: Associação de Jogos Tradicionais da Guarda
TAVARES, Adérito
1969 Monografia Etno-Histórico-Geográfica de Aldeia de Bispo (Sabugal), in “Jogos Florais”, Emissora Nacional de Radiodifusão,
Lisboa
1985 A capeia arraiana, Ed. Autor
2001 A tauromaquia popular na raia do Sabugal. In Congresso do 7º Centenário do Foral – Sabugal. Actas. Sabugal: Câmara Municipal do Sabugal, p. 89-96
TEIXEIRA, Fernando
1994 O touro e o destino: a morte e ressurreição a las cinco en punto de la tarde
Lisboa: Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões
1995 A corrida do forcão, Mediterrâneo. Revista de Estudos Pluridisciplinares sobre as Sociedades Mediterrâncias, Lisboa, 5/6, Julho-Dezembro 1994 / Janeiro-Junho 1995, p. 23-32 + 2 fotos
VASCONCELLOS, J. LEITE DE
1985 Etnografia Portuguesa (vol. IX)
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda
Filmes:
Em 1969 foi filmada, por uma equipa de Antropólogos alemães (acompanhados por Ernesto Veiga de Oliveira), uma capeia nos Forcalhos. O documento foi editado em 1970: Encyclopaedia Cinematográfica, Film E 1869; Südwest-Europa, Portugal, Stierkamft in Forcalhos, 1970;
Pedro Sena Nunes realizou um documentário/filme “Há Tourada na Aldeia”, apresentado este ano no IndieLisboa e no dia 15 de Junho na TMG (Guarda), sobre a capeia arraiana e que está inserido num projecto mais abrangente, através do qual o realizador pretende documentar diversas tradições das regiões portuguesas.
A Capeia Arraiana mantém, no essencial, as mesmas características desde há muitos anos. No entanto, alguns aspectos acessórios têm sofrido algumas alterações, o que tornou a festa mais adequada aos tempos e à sensibilidade actuais. Cada vez é menos um ritual de passagem dos jovens; os carros de vacas foram substituídos por reboques de tractor, e em algumas povoações foram construídas praças de touros. Por outro lado, em quase todas as povoações, passaram-se a lidar cerca de seis touros. O forcão é mais cuidado esteticamente, e as varas, os aguilhões, o bater nos touros sempre que se aproximavam dos carros apinhados de gente, foram desaparecendo lentamente, sendo agora uma prática publicamente censurada quando alguém ainda a tenta. O touro não é mal tratado e respeita-se a dignidade do animal. Cada vez mais a Capeia Arraiana é uma festa, uma demonstração de força e coragem entre o homem e a bravura do touro. Em lugar de se humilhar o animal batendo-lhe, respeita-se o touro, e à sua ferocidade natural tenta-se esquivar com valentia, com coragem, afirmando-se a extraordinária destreza individual e colectiva.
A fim de compararmos a lide que era praticada antigamente com a que hoje se pratica, transcrevo a descrição que Joaquim Manuel Correia (1946), faz no livro, Terras de Riba-Côa. Memórias sobre o Concelho do Sabugal, resultante da sua observação no final do Século XIX, princípios do Século XX. Felizmente, a tradição já não é o que era!
As corridas dos touros (Nave)
Um divertimento que os da Nave não dispensam é a corrida do touro, uma ou mais vezes cada ano, assim como os do Souto, Vila Boa, Sabugal, e outras mais terras do concelho, especialmente as situadas na margem direita do rio Côa. É ao que se chama folguêdo. O touro é alugado por indivíduos que os compram em Espanha para aquele fim. Geralmente recebe o dono do touro a quantia de 5.000 réis por cada folguêdo.
O touro é corrido numa praça improvisada na véspera, cercada de carros bem cheios de lenha, no cimo dos quais o povo assiste à tourada.
Todos os rapazes são toureiros, picando o touro com grandes varas, de quatro ou cinco metros de comprimento, em cuja extremidade está cravado um aguilhão de ferro.
Mas a parte mais curiosa do folguêdo consiste no forcão, espécie de grade, formada dum grande ramo ou pernada de carvalho, com uma grossa vara onde os galhos se atam e afastam, dando-lhe a forma triangular.
O rabeador, tal como um timoneiro, dirige esta máquina, levantando-a, desviando-a para que o touro não apanhe 15 ou 20 rapazes que a cercam; e os 2 do garrochão, armados de grossos paus com longas choupas, defendem-se das investidas do touro, cravando-lhe os ferros dos garrochões, ao mesmo tempo que os das varas ou garrochas o distraem, fugindo a meter-se debaixo dos carros.
Infeliz do que se deixa apanhar, que fica estendido na arena, às vezes para não mais se levantar, como várias vezes tem sucedido. Mas apesar disso o divertimento deve ainda continuar, porque a Nave, como as mais povoações próximas de Espanha, tem grande predilecção pelas corridas de touros e, quando ali o não correm, vão assistir às corridas doutras povoações. (pág. 193 e 194).
As corridas dos touros (Quadrazais)
É um fraco, ou, melhor diremos, um forte dos Quadrazenhos a corrida do touro, outrora no dia da festa, hoje noutro dia, depois que o Bispo D. Tomaz, proibiu as corridas nos dias de festas.
O sistema de correr o touro é, como nas outras terras, com o forcão, garrochas e garrochões. Na arena estão os moços com o forcão, todos ligados uns aos outros por cintas para, se algum cair, os outros o arrastarem e livrarem do perigo. Lenços bordados pelas nôbias (noivas) alvejam nas algibeiras das jaquetas. Uns sem jaquetas, e bem ligados pelas cintas, ramos de mangerico na orelha, outros de lenços encarnados nos bolsos, gritam, esperam que o touro saia.
As raparigas dão ais, umas chamam pelos irmãos, outras pelos maridos; mães aflitas lamentam que os filhos lhes desobedeçam; mas tudo isso passa despercebido em meio de milhares de vozes, assobios e gritaria enorme.
Sai o touro, investe com o forcão, mas o rabeador ou rabichador, alto, valente, entendido, evita que os ataques pelos flancos, no que é auxiliado pelos dois dos lados, os das galhas, e outros, munidos de garrochões e massas, que fazem recuar o touro no seu ímpeto formidável.
Distraem-nos os das garrochas, cada qual pica quanto pode e o touro urra e verte sangue pelas feridas abertas por todos. Pára no meio da praça, gira em volta para correr sobre algum mais atrevido, que às vezes fica estendido.
Aquilo é bárbaro, brutal, e há muito devia ter sido proibido; mas é uma prova de valentia e ai daquele que se recusa, que é homem perdido para os outros, homem desprezado pelas raparigas. É a regra em Quadrazais e noutras povoações. (pág. 212)
Corrida do Touro (Vila Boa)
Não podia esta povoação escapar à influência dos vizinhos no que toca à selvática corrida do touro, e dizemos touro, porque nunca se corre mais do que um, cujo dono recebe 5.000 réis por cada corrida, a que chamam folguedo. A corrida é sempre ao forcão e vara larga ou garrocha, como em toda a raia lhe chamam, garrochões e maças.
O corro (curro) é feito num largo da povoação, tapando com carros cheios de lenha, tábuas e paus, as ruas que ali desembocam, o que parece uma barricada, sobrepujada depois pelo povo que se encarapita ali, armado de paus, de varas, foeiros, berrando, assobiando… As mulheres descompõem os maridos e ameaçam os filhos que vão tomar parte na corrida, choram, barafustam, numa gritaria infernal.
Os do forcão, ligados uns aos outros com as cintas, seguram o madeiro e esperam a investida do touro mal é aberta a porta da loja (assim chamam ao curral) onde o bicho está. Às vezes põe tudo em debandada, mas geralmente é vencido pelos grossos ferros dos garrochões empunhados pelos mais valentes que ladeiam a frente do forcão.
O rabeador, como quem diz o chefe da quadrilha, regula os movimentos, desvia o forcão, de modo a evitar que a fera ataque pelos flancos, o que seria uma fatalidade. É por isso sempre um homem alto, vigoroso e possante, dotado de coragem e, como todos os outros, capaz de afrontar o perigo.
Os das garrochas cravam-lhe ferros e, quando o touro corre vertiginosamente, furioso, em busca de vingança, outros o ferem de novo. Avança para o forcão, mas este evita-lhe as investidas, e no focinho e peito penetram-lhe os grossos ferros dos garrochões, quando lhe não impossibilitam a marcha, inutilizando-lhe as patas. Urra então no meio do côrro, ouvindo a gritaria do povo insaciável de sangue.
O dono protesta, quer retirar o animal, mas o entusiasmo atingiu o auge, os assobios e gritos ensurdecem tudo e a corrida continua. Mas o touro, cada vez mais furioso, procura com o olhar enraivecido o ponto mais fraco e corre e salta, fugindo pelos campos, numa fúria medonha, deixando uns esmagados pelas patas, outros feridos pelas pontas, finas como agulhas. Foi numa dessas fugidas que o touro matou, haverá perto de trinta anos, uma pobre velha, a tia Angela, que nem o nome, nem a repugnância que sempre teve pelas corridas, salvaram ao passar, pacata, despreocupada, por uma rua. Assim acabou uma das últimas corridas a que assistimos em Vila Boa. (pág. 282)