Pessoas simples, cujo ganha-pão vem das lides agrícolas; tudo o que cultivam é para consumo próprio e dos seus animais. Ficam aqui os testemunhos de quem passou momentos de pânico e terror, e que assistiu sem nada poder fazer, à destruição de pastos, vinhas, oliveiras e à morte dos seus animais.
Sortelha - Ribeira da Nave
Germina Jesus
“Passámos momentos muito difíceis, o fogo andava muito depressa, o vento era muito e estava muito calor. Foi a minha irmã que me telefonou e me disse que o fogo já estava perto. Quando cheguei a primeira preocupação foi ir buscar as ovelhas. Os bombeiros não nos ajudaram, tivemos que ser nós. Só deu tempo para salvarmos os animais, mais nada. Depois foi tentar salvar as casas. O pasto, que é o alimento das ovelhas, foi todo com o fogo, agora não temos nada para lhes dar. Quem é que nos vai ajudar, como é que vamos dar de comer aos animais”.
Maria Esteves
“Tive que fugir com a vacas. As cabras para fugirem do fogo embrenharam-se para a serra, mas foram apanhadas por ele (fogo). Fiquei sem dois chibos, três cabras, e uma ainda se safou, mas está muito mal. Mas a minha preocupação era o meu “ninho” (casa), porque o meu marido estava para lá, para tentar que o fogo não chegasse ao feno. Arderam-me três palheiros, três carros de vaca e pasto, e agora o que é que eu vou dar aos animais? Mas o pior de tudo era se perdia o “ninho” por isso é que eu pedi a Nossa Senhora que o guardasse. Encontrei uns bombeiros que estavam noutra casa e disse-lhes para me irem ajudar, e eles disseram-se que a minha casa já estava arder e não me ajudaram, mas eu e o meu marido conseguimos salvá-la”.
Quinta da Vinha Redonda
Maria Patrocínio da Conceição Clara
“Vimo-nos aflitos com o fogo, os bombeiros não nos acudiram, o que valeu foi o povo. Perdi cerca de 45 oliveiras, vinhas, couves, um pinhal…fiquei sem tudo. Agora não sei como é que vai ser. Ainda não fiz contas ao prejuízo. Tenho ali uma vizinha que perdeu uma casa de habitação, ardeu tudo o que estava lá dentro.
Mina da Bica
Irondina de Jesus Fernandes
“O meu homem ficou aqui sozinho para tentar salvar os animais e a casa, mas não conseguiu salvar as galinhas, nem os coelhos. Fiquei sem batatas, sem feno, sem azeite, feijões, que tinha para o ano inteiro, milho e aguardente que tinha guardado num anexo…ardeu tudo. Os bombeiros vieram depois de isto já estar tudo ardido. Uma filha minha ainda passou mal e desmaiou. O INEM levou-a para o hospital. Foi uma sorte o meu marido não ter morrido, sozinho com tanto fumo”.
Sortelha
Henrique Almeida
“Ardeu-me os tubos de rega todos, queimou-me a lenha (Henrique Almeida é vendedor de lenha), queimou-me o feno que eu tinha no Ribeiro dos Amigos e na Ribeira da Nave. Tudo o que ali havia ardeu tudo. Agora tenho que comprar os tubos para a rega, porque o feno fiquei sem ele, e a lenha também. No total arderam-me cerca de 50 tractores de lenha, é um prejuízo muito elevado para ser suportado. Também me ardeu um pinhal. Foram dois dias e três noites que andei de volta do fogo e não consegui salvar nada, e não tenho nada a agradecer aos bombeiros, porque eles não nos ajudaram.
Porcínia Clara (esposa)
“Temos uma casa onde guardamos o feno e batatas, o fogo andava ali, e foi o meu marido com um tractor que andou a lavrar para o fogo não chegar ali que a safou, porque os bombeiros não fizeram nada”
Relatos de pessoas que viram uma vida de trabalho destruída, e o seu sustento ser fustigado pelo maior incêndio dos últimos anos no concelho.